Educação Escolar de Pessoas com Surdez Atendimento Educacional Especializado em
Construção
(Mirlene Ferreira Macedo Damázio
e Josimário de Paulo Ferreira)
Historicamente
a educação escolar de pessoas com surdez esteve pautada pelo embate de duas
correntes epistemológicas: o oralismo puro e a posição gestualista. Em
determinado momento histórico ora defendia-se a uma tendência ou outra e o
fracasso ou sucesso escolar do aluno com surdez estava relacionado com a adoção
de uma dessas práticas.
Segundo
a autora o embate entre gestualistas e oralistas prejudica o desenvolvimento
das pessoas surdas na instituição escolar, por que canaliza a atenção dos
profissionais da escola para o problema de língua em si:
“
Enquanto as discussões ficam centradas na aceitação de uma língua ou de outra,
as pessoas com surdez não têm o seu potencial individual e coletivo
desenvolvido, ficam secundarizadas e descontextualizadas das relações sociais
das quais fazem parte, sendo relegadas a
uma condição excludente ou a uma minoria.” (p.47)
Com a finalidade de romper
com esses dois paradigmas tão extremos e que não trouxeram avanços
significativos para a educação escolar da pessoa com surdez e com o objetivo de
se construir um paradigma realmente inclusivo a autora reflete que o fracasso
do processo educativo das pessoas com surdez é um problema da qualidade das
práticas pedagógicas e não um problema somente focado nessa ou naquela língua.
Desse modo, interpretando
a pessoa com surdez, à luz do pensamento pós-moderno, como ser humano
descentrado, não sendo focada sua deficiência, mas sim as suas potencialidades,
a autora faz adesão a Proposta Bilíngue para a educação da pessoa com surdez
como uma forma de sintetizar e abranger as duas tendências que existiam: o
oralismo e gestualismo.
Na
proposta Bilíngue nenhuma língua é privilegiada, a pessoa com surdez escolherá
que tipo de língua utilizará, de acordo com sua necessidade em momentos
linguísticos diferenciados. Desse modo a língua gestual (LIBRAS) e a oral
(Português), são ensinadas e usadas simultaneamente sem que uma interfira e/ou
prejudique a outra.
Para
que de fato as escolas estruturem suas práticas pedagógicas sob a ótica da
proposta bilíngue uma transformação de paradigma terá que acontecer, pois
segundo as autoras mais do que uma língua, as pessoas com surdez precisam de
ambientes educacionais estimuladores, que desafiem o pensamento e exercitem a
capacidade perceptivo-cognitiva.
Além disso, criar uma escola somente para pessoas com
surdez, por meio de argumentos referentes à especificidade de cultura, de
língua e de comunidade ( o chamado “mundo surdo”) é continuar legitimando a exclusão e querer
homogeneizar a educação escolar.
Para
que a proposta bilíngue seja efetuada outros mitos também devem ser
ultrapassados, como pensar, por exemplo, que uma língua é subordinada a outra; e
que somente a aquisição da língua de sinais, garante uma aprendizagem
significativa;
Uma escola realmente
inclusiva constrói um Atendimento
Educacional Especializado para pessoas com surdez (AEE PS) com a finalidade de organizar
o trabalho complementar para a classe comum, objetivando favorecer a
independência social, afetiva, cognitiva e linguística da pessoa com surdez
dentro e fora da escola.
Esse AEE PS precisa ser pensado em redes
interligadas, sem hierarquização de conteúdo nem redução dos mesmos; mas com
uma ação ligada entre o pensar e o fazer pedagógico. Nesse sentido as autoras
apresentam a Pedagogia Contextual Relacional que objetiva formar o ser humano,
com base em contextos significativos, aplicando a metodologia vivencial, que
leva o aluno a aprender a aprender:
“O sentido dessa
pedagogia encontra-se em formar o ser humano, com base em contextos
significativos, em que se procura desenvolvê-lo em todos os aspectos possíveis”
(p.53)
Sabe-se
que essa linha de pensamento é recente e uma proposta pedagógica bilíngue não
está sistematizada no nosso país, mas cabe às escolas efetuarem essa
transformação para que realmente a inclusão aconteça.
Referência
Bibliográfica:
DAMÁZIO, M.
F. M.; FERREIRA, J. Educação Escolar de Pessoas com Surdez-Atendimento
Educacional Especializado em Construção. Revista Inclusão: Brasília: MEC, V.5,
2010. p.46-57.
“ Enquanto as discussões ficam centradas na aceitação de uma língua ou de outra, as pessoas com surdez não têm o seu potencial individual e coletivo desenvolvido, ficam secundarizadas e descontextualizadas das relações sociais das quais fazem parte, sendo relegadas a uma condição excludente ou a uma minoria.” (p.47)