quinta-feira, 26 de junho de 2014

Um convite à reflexão



“O modelo dos modelos”
Italo Calvino

Houve na vida do senhor Palomar uma época em que sua regra era esta: primeiro, construir um modelo na mente, o mais perfeito, lógico, geométrico possível; segundo, verificar se tal modelo se adapta aos casos práticos observáveis na experiência; terceiro, proceder às correções necessárias para que modelo e realidade coincidam. [..] Mas se por um instante ele deixava de fixar a harmoniosa figura geométrica desenhada no céu dos modelos ideais, saltava a seus olhos uma paisagem humana em que a monstruosidade e os desastres não eram de todo desaparecidos e as linhas do desenho surgiam deformadas e retorcidas. [...] A regra do senhor Palomar foi aos poucos se modificando: agora já desejava uma grande variedade de modelos, se possível transformáveis uns nos outros segundo um procedimento combinatório, para encontrar aquele que se adaptasse melhor a uma realidade que por sua vez fosse feita de tantas realidades distintas, no tempo e no espaço. [...] Analisando assim as coisas, o modelo dos modelos almejado por Palomar deverá servir para obter modelos transparentes, diáfanos, sutis como teias de aranha; talvez até mesmo para dissolver os modelos, ou até mesmo para dissolver-se a si próprio.
Neste ponto só restava a Palomar apagar da mente os modelos e os modelos de modelos. Completado também esse passo, eis que ele se depara face a face com a realidade mal padronizável e não homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus “nãos”, os seus “mas”. Para fazer isto, melhor é que a mente permaneça desembaraçada, mobiliada apenas com a memória de fragmentos de experiências e de princípios subentendidos e não demonstráveis. Não é uma linha de conduta da qual possa extrair satisfações especiais, mas é a única que lhe parece praticável.

Ao refletir sobre o texto lido observamos que o Senhor Palomar deseja construir um modelo perfeito, o mais lógico e o geométrico possível onde todos pudessem ser encaixados. Entretanto, com o passar do tempo ele chegou à conclusão que não poderia construir um único modelo, pois nem tudo se encaixava nele e a sua prática foi modificada, agora ela achava ser necessário construir não um, mas, vários modelos.
Ainda assim, construir vários modelos, também não era satisfatório, pois eles não abrangiam as diferentes realidades. Então ele chegou à conclusão que não era possível construir um modelo perfeito, ou o modelo dos modelos, é necessário estar com a mente aberta e mesmo dissolver os modelos, ou dissolver-se a si próprio.
Relacionando o texto com a nossa prática de professor de Atendimento Educacional Especializado (AEE) às vezes pensamos e agimos igual ao Senhor Palomar: queremos alunos homogêneos, onde possamos utilizar a mesma prática com todos os alunos, desejamos um modelo perfeito!. Mas a prática diária nos mostra que os alunos são diferentes, únicos, e mesmo aqueles que possuem a mesma a deficiência tem as suas especificidades. Somos desafiados a todo momento com as singularidades de cada aluno. E o que fazer?
Assim, como o Senhor Palomar devemos mudar a nossa prática, deixar a mente aberta, buscar conhecimento, se desconstruir dos preconceitos, conhecer as necessidades e potencialidades do nosso aluno para podermos construir e adaptar práticas pedagógicas que auxiliarão os nossos discentes.